sábado, 11 de outubro de 2014

16 – O Nariz – N. Gogol

O Nariz de Nikolai Gogol (1809-1852), escritor russo mais conhecido entre nós por ter escrito uma das grandes peças de teatro de todos os tempos: O Inspetor Geral, descreve as desventuras do auxiliar de magistratura Kovaliov depois de olhar ao espelho e descobrir que seu nariz tinha desaparecido. escreveu este conto com extrema criatividade e bom humor.  Gogol em sua obra retrata em detalhes a imagem do burocrata russo do século dezenove e outro conto dele que merece destaque é “O Capote”, não tão bem humorado, mas igualmente genial.
O nariz
Nikolai Gogol
Tradução de Arlete Cavaliere

I
No dia 25 de março aconteceu em Petersburgo um fato extraordinariamente estranho. O barbeiro Ivan Iakovlievitch, residente na avenida Vosnesenski (o seu sobrenome perdera-se, e até mesmo em sua placa — onde se viam um senhor com a bochecha ensaboada e a seguinte inscrição: "Faz- se também sangria" — não aparecia nada mais), o barbeiro Ivan Iakovlievitch acordou bastante cedo e sentiu o cheiro de pão quente. Soerguendo-se um pouco da cama, viu que sua esposa, uma senhora bastante respeitável e que gostava muito de tomar café, acabava de tirar os pães recém-assados do forno.
"Hoje, Prascovia Ossipovna, eu não tomarei café", disse Ivan Iakovlievitch. "Em lugar disso, gostaria de comer pão quente com cebola. (Quer dizer, Ivan Iakovlievitch queria um e outro, mas sabia que era absolutamente impossível exigir duas coisas ao mesmo tempo, já que Prascovia Ossipovna não gostava nada, nada daqueles caprichos.)
"Que coma o pão, o bobão; melhor pra mim", pensou consigo mesma a esposa, "vai sobrar uma porção a mais de café", e jogou um pão sobre a mesa.
Ivan Iakovlievitch, conforme mandava o bom-tom, vestiu fraque sobre o camisolão e, sentando-se a mesa, pôs o sal, preparou duas cabeças de cebola, pegou a faca na mão e, fazendo um gesto expressivo, pôs-se a cortar o pão. Cortando o pão em duas metades, deu uma olhada no meio e, para sua grande surpresa, viu algo esbranquiçado. Ivan Iakovlievitch remexeu cautelosamente com a faca e tocou com o dedo:
"Duro?", disse para si mesmo. "Que será isso?"
Meteu os dedos e tirou... um nariz... Ivan Iakovlievitch deixou cair os braços, começou a esfregar os olhos e a palpar: um nariz, realmente, um nariz! E ainda por cima pareceu-lhe não de todo estranho. O horror se refletiu no rosto de Ivan Iakovlievitch. Mas esse horror não foi nada, comparado com a indignação que se apoderou de sua esposa.
"Animal, de onde você cortou esse nariz?", gritou furiosa. "Vigarista! Bêbado! Eu mesma vou denunciar você a policia. Que bandido! Eu já ouvi três pessoas dizerem que quando você faz a barba puxa tanto os narizes que eles mal se aguentam." A essa altura, Ivan Iakovlievitch estava mais morto do que vivo. Reconheceu que aquele nariz só podia ser do auxiliar de magistratura Kovaliov, de quem fazia a barba todas as quartas e domingos.
"Espera, Prascovia Ossipovna! Vou coloca-lo num cantinho embrulhado num trapo: deixa ele ficar lá um pouquinho; depois eu tiro."
"Não quero nem ouvir! Acha que vou permitir que um nariz cortado fique no meu quarto? Seu torrada queimada! Só sabe e passar a navalha na correia, mas daqui a pouco não estará em condições nem mesmo de cumprir com seu dever, seu canalha, mulherengo! Acha que vou responder por você na policia?... Ah! Sujo, burro como uma porta. Fora daqui! Leve-o para onde quiser! Não quero sentir nem o cheiro dele!"
Ivan Iakovlievitch ficou completamente abatido. Pensava, pensava, mas não sabia o que pensar.
"Só o diabo sabe como e que isso aconteceu", disse finalmente coçando atrás da orelha. "Teria eu voltado bêbado ontem, ou não? Já não sei ao certo, não. Mas, de qualquer maneira, tudo indica que é um acontecimento fora do comum; pois o pão e uma coisa assada, e o nariz não é nada disso. Não entendo mais nada!" Ivan Iakovlievitch calou-se. A ideia de que a policia descobriria o nariz em sua casa e o culparia deixou-o completamente atordoado. Parecia que já estava até vendo a gola vermelha com bordados bonitos em prata, a espada... e ele tremia no corpo todo. Por fim, achou sua roupa de baixo e as botas, vestiu todos esses trapos e, acompanhado pelas duras invectivas de Prascovia Ossipovna, embrulhou o nariz em um trapo e saiu para a rua.
Queria enfia-lo em qualquer canto: ou num frade-de-pedra ao lado de algum portão, ou deixa-lo escapar da mão como que acidentalmente e ao virar logo numa esquina. Mas, para sua desgraça, estava sempre topando com algum conhecido que lhe perguntava de chofre:
"Para onde você esta indo?" ou "De quem vai fazer a barba tão cedo?"
Dessa maneira, Ivan Iakovlievitch não conseguia achar um minuto sequer de tranquilidade. Numa das vezes ele já tinha até deixado o nariz cair, quando uma sentinela de longe lhe fez sinais com a alabarda, dizendo:
"Ei! Pega lá! Você deixou cair alguma coisa!", e Ivan Iakovlievitch teve de pegar de novo o nariz e esconde-lo no bolso.
O desespero tomou conta dele, principalmente quando viu que o número de pessoas aumentava na rua a medida que começavam a abrir lojas e bazares.
Decidiu ir em direção a ponte Issakievski: será que não daria jeito de atira-lo no Nieva?... Mas sinto-me um tanto culpado por não ter falado até agora sobre Ivan Iakovlievitch, homem de respeito, sob muitos aspectos.
Ivan Iakovlievitch, como todo artesão russo honrado, era um tremendo beberrão. E embora barbeasse o queixo dos outros todos os dias, o seu próprio estava eternamente sem barbear. O fraque de Ivan Iakovlievitch (Ivan Iakovlievitch nunca usava sobrecasaca) era malhado; quer dizer, era preto, mas estava todo coberto de manchas cinza e de um marrom amarelado; a gola brilhava e no lugar dos três botões só estavam penduradas as linhas. Ivan Iakovlievitch era um grande cínico e quando, na hora de barbear, o auxiliar de magistratura Kovaliov lhe dizia: "Suas mãos, Ivan Iakovlievitch, sempre fedem!", então Ivan Iakovlievitch respondia com a seguinte pergunta: "E por que será que elas fedem?". "Não sei, irmãozinho. Só sei que fedem", dizia o auxiliar. E Ivan Iakovlievitch, em represália, depois de cheirar o rapé, o ensaboava nas bochechas, debaixo do nariz, atrás da orelha e debaixo da barba, quer dizer, onde lhe dava na telha.
Esse cidadão respeitável já se encontrava na ponte Issakievski. Antes de mais nada, olhou atentamente para todos os lados, depois inclinou-se sobre o parapeito como se quisesse ver se eram muitos os peixes que nadavam sob a ponte, e ali jogou bem devagarinho o trapo com o nariz. Sentiu-se como se lhe tivessem tirado de cima dez libras de uma só vez: Ivan Iakovlievitch até sorriu. E em vez de ir barbear o queixo dos burocratas, dirigiu-se a um estabelecimento que tinha o letreiro "Comida e Chá" para pedir um copo de ponche. Mas, de repente, notou na extremidade da ponte o inspetor do bairro, de aspecto imponente, costeletas compridas, chapéu triangular e espada. Ficou petrificado. Entrementes, o inspetor, fazendo-lhe um sinal com o dedo, lhe disse:
"Venha cá, meu caro!"
Ivan Iakovlievitch, reconhecendo o uniforme, tirou ainda de longe o boné e, aproximando-se com prontidão, disse: "Tenha um bom dia, Excelência."
"Não, não, irmãozinho, nada de Excelência; mas, diga-me, o que você estava fazendo de pé ali na ponte?"
"Por Deus, senhor, eu fui fazer barbas e só dei uma olhada para ver se o rio corria bem."
"Esta mentindo! Mentindo! Não e assim que vai se livrar, não. Faça o favor de responder."
"Eu posso fazer a barba de Vossa Excelência duas ou até três vezes por semana sem a mínima objeção", respondeu Ivan Iakovlievitch.
"Não, amigo, deixe de bobagem! Três barbeiros já me fazem a barba e consideram isso uma grande honra. Agora faça-me o favor de dizer o que estava fazendo ali."
Ivan Iakovlievitch empalideceu... Mas aqui o acontecimento fica completamente encoberto por uma nevoa e não se sabe absolutamente nada do que se passou depois.
II
O auxiliar de magistratura Kovaliov acordou bastante cedo e fez brr... com os lábios, coisa que sempre fazia ao despertar, embora ele mesmo não soubesse explicar por qual motivo. Kovaliov espreguiçou-se e ordenou que lhe trouxessem um pequeno espelho que estava sobre a mesa. Só queria dar uma olhada na pequena espinha que tinha aparecido em seu nariz na noite anterior; mas, para sua imensa surpresa, viu que em vez de nariz havia uma superfície completamente lisa. Assustado, Kovaliov pediu agua e esfregou os olhos com uma toalha: de fato, o nariz não estava lá! Começou a apalpar com a mão para se certificar de que não estava dormindo: não, não estava. O auxiliar de magistratura Kovaliov pulou da cama e estremeceu: nada de nariz!... Ordenou que o vestissem imediatamente e saiu voando direto para a chefatura de policia.
Enquanto isso é indispensável dizer alguma coisa sobre Kovaliov, para que o leitor possa saber de que espécie era esse auxiliar de magistratura.
Não se pode comparar de nenhuma maneira os auxiliares de magistratura que recebem esse titulo por meio de certificados acadêmicos com aqueles auxiliares de magistratura que se fazem no Cáucaso. São duas espécies completamente diferentes. Os auxiliares de magistratura acadêmicos... Ah! Mas a Rússia e uma terra tão maravilhosa que, se você falar de um auxiliar de magistratura, todos os auxiliares de magistratura, de Riga até Kamtchatka, imediatamente se sentirão atingidos. O mesmo se diga de todos os outros cargos e graus.
Kovaliov era um auxiliar de magistratura caucasiano. Estava nesse cargo havia apenas dois anos e nem por um minuto podia se esquecer disso, e, para se atribuir ainda mais nobreza e peso, ele nunca se referia a si próprio como auxiliar de magistratura, mas como major. "Escute, pombinha", dizia habitualmente ao encontrar uma mulher vendendo roupas na rua: "Va a minha casa; meu apartamento e na Sadovaia; pergunte apenas se mora ali o major Kovaliov e qualquer um vai lhe mostrar". Caso ele encontrasse alguma jeitosa, dava-lhe um bilhete secreto que dizia: "Você pergunta, benzinho, pelo apartamento do major Kovaliov". E é por isso mesmo que de agora em diante vamos chamar de major a esse auxiliar de magistratura.
O major Kovaliov tinha o habito de perambular todos os dias pela avenida Nievski. O colarinho de sua camisa estava sempre extremamente limpo e engomado. Suas costeletas eram daquele tipo que ainda se pode ver nos agrimensores da província, nos arquitetos (mas só se forem russos), e também nos diferentes policiais, cumpridores de seu dever e, em geral, em todos aqueles machões que tem bochechas cheias e coradas e sabem jogar cartas muito bem: essas costeletas passam exatamente pelo centro das bochechas e vão diretamente até o nariz. O major Kovaliov levava uma grande quantidade de sinetes de cornalina com frases e com inscrições: quarta-feira, quinta-feira, segunda-feira etc. O major Kovaliov chegou a Petersburgo por necessidade, ou melhor, para procurar um posto mais condizente com seu cargo: se tivesse sorte, quem sabe, até de vice-governador, ou, pelo menos, de administrador de algum departamento de renome. O major Kovaliov não teria nada contra o casamento, desde que acontecesse de a noiva ter uma fortuna de 200 mil rublos. E, assim, o leitor pode avaliar agora em que situação se viu esse major quando percebeu que, em vez do seu nariz, certinho e nada feio, havia esse estupido espaço, plano e liso.
Para sua desgraça, não aparecia na rua nenhum cocheiro, e ele teve de ir a pé, envolto em sua capa, cobrindo o rosto com um lenço, fingindo que estava sangrando. "Quem sabe é apenas impressão minha, não pode ser que um nariz desapareça assim, de bobeira." Entrou numa confeitaria com o proposito de olhar-se no espelho. Por sorte, não havia ninguém lá; uns rapazinhos varriam as salas e colocavam as cadeiras; alguns deles, de olhos sonolentos, retiravam nas bandejas os pasteizinhos quentes; nas mesas e cadeiras estavam jogados os jornais da véspera manchados de café. "Bom, gramas a Deus que não ha ninguém", falou. "Agora posso olhar." Aproximou-se timidamente do espelho e deu uma olhada. "Com os diabos, que droga!", disse cuspindo... "Ainda se tivesse alguma coisa no lugar do nariz, mas nada!..."
Mordendo os lábios de ódio, saiu da confeitaria e decidiu, contrariando seu costume, não olhar nem sorrir para ninguém. De repente, ficou petrificado junto a porta de uma casa; diante de seus próprios olhos, ocorreu um fenômeno inexplicável: em frente a entrada uma carruagem parou; as portinholas se abriram e, inclinando-se um pouco, saltou um senhor de uniforme e subiu correndo a escada. E qual não foi o espanto e ao mesmo tempo a surpresa de Kovaliov quando reconheceu o seu próprio nariz! Diante desse espetáculo extraordinário pareceu-lhe que tudo girava diante de seus olhos; sentiu que mal podia se manter em pé Mas, de qualquer modo, tremendo como que de febre, resolveu esperar que voltasse a carruagem. E, com efeito, ao cabo de dois minutos o nariz saiu. Usava um uniforme bordado em ouro, com uma gola alta, calças de camurça e uma espada do lado. Pelo chapéu de plumas podia-se concluir que ele se considerava um conselheiro de Estado. Tudo indicava que ia para algum lugar fazer visita. Deu uma olhada para ambos os lados e gritou ao cocheiro "Vamos!". Sentou-se e partiu.
O pobre Kovaliov quase perdeu o juízo. Não sabia o que pensar desse acontecimento tão estranho. Com efeito, como era possível um nariz que no dia anterior estava em seu rosto e que não podia correr nem andar, estar agora metido num uniforme! Pôs-se a correr atrás da carruagem que, por sorte, não tinha ido muito longe e havia parado bem em frente da catedral de Kazan.
Dirigiu-se apressado para a catedral, abriu caminho por entre uma fila de pobres velhinhas que tinham os rostos tão cobertos que só havia duas aberturas para os olhos, e das quais antes costumava rir tanto, e entrou na igreja. Eram poucos os fieis lá dentro e estavam todos apinhados na entrada, junto a porta. Kovaliov sentia-se tão desolado que não teve absolutamente formas para rezar e procurou com os olhos aquele senhor por todos os cantos. Por fim, viu-o de pé ao lado. O nariz escondera completamente o rosto numa gola grande e alta, e rezava com uma expressão de profunda devoção.
"Como me aproximar dele?", pensou Kovaliov. "Pelo uniforme, pelo chapéu por tudo, parece que e um conselheiro de Estado. Com o diabo, como fazer?!"
Começou a tossir perto dele, mas o nariz nem por um minuto abandonou sua atitude devota e as reverencias que continuava fazendo.
"Excelentíssimo senhor...", disse Kovaliov, esforçando-se por se mostrar mais animado. "Excelentíssimo senhor..."
"O que deseja?", respondeu o nariz, virando-se.
"E estranho, excelentíssimo senhor... me parece... o senhor deveria saber o seu lugar. E de repente o encontro justamente onde? Na igreja. O senhor ha de convir..."
"Queira desculpar, mas não entendo o que o senhor esta tentando me dizer. Explique-se."
"Como lhe explicar?!", pensou Kovaliov, e, recobrando o animo, recomeçou. "Bem, é claro, eu... alias, eu sou major. O senhor ha de convir que e inconveniente que eu ande sem nariz. Qualquer vendedora de laranjas descascadas na ponte Voskresenski pode ficar ali sentada sem nariz, mas um rosto que aspira ao cargo de governador, sem duvida alguma... imagine o senhor mesmo... não sei, excelentíssimo senhor... (então o major Kovaliov encolheu os ombros)... me desculpe... mas se considerar isto de acordo com as regras do dever e da honra... o senhor mesmo poderá compreender..."
"Não estou entendendo absolutamente nada", respondeu o nariz. "Explique-se de forma mais conveniente."
"Excelentíssimo senhor...", disse Kovaliov com um sentimento de amor- próprio, "não sei como entender suas palavras... Aqui, tudo me parece muito claro... Ou, se o senhor quiser..., o senhor e o meu próprio nariz!"
O nariz olhou para o major, e suas sobrancelhas franziram-se um pouco. "O senhor esta enganado, cavalheiro. Eu sou eu mesmo. Além do mais, entre nos não pode haver nenhuma relação Intima. A julgar pelos botões de seu uniforme, o senhor deve pertencer ao Senado ou, quando muito, a Justiça; já eu, sou do Departamento de Instrução." Dizendo isso, o nariz deu as costas e continuo rezando.
Kovaliov sentia-se completamente desconcertado, sem saber o que fazer e nem mesmo em que pensar. Nesse momento, ouviu-se um ruído agradável de um vestido de mulher; aproximou-se uma senhora de certa idade toda envolta em rendas, acompanhada de uma jovem muito delicada, num vestido branco que desenhava com muita graça seu talhe esbelto, e com um chapéu cor de palha leve como um biscoito. Atrás delas parou e abriu uma tabaqueira um senhor alto, com grandes costeletas e uma dúzia inteira de golas.
Kovaliov se aproximou mais um pouco, pôs a mostra a gola de cambraia do peitilho, arrumou seus sinetes que pendiam da corrente de ouro e, sorrindo para os lados, concentrou sua atenção na frágil mulher que, como uma flor de primavera, se inclinava suavemente e levava a testa sua mãozinha branca de dedos diáfanos. O sorriso no rosto de Kovaliov abriu-se ainda mais quando viu sob o chapéu o queixo redondinho de uma brancura radiante e uma parte de sua face coberta pela cor da primeira rosa da primavera. Mas, de repente, deu um salto para trás como se tivesse se queimado. Lembrou-se de que onde deveria haver um nariz não havia absolutamente nada, e as lagrimas brotaram em seus olhos. Virou-se rapidamente com o objetivo de dizer, sem rodeios, aquele senhor de uniforme que estava fingindo ser um conselheiro de Estado, que ele era um patife, um canalha e que era nada mais, nada menos de que seu próprio nariz... Mas o nariz já não estava lá: tinha tido tempo suficiente de escapulir, provavelmente para fazer alguma outra visita.
Isso levou Kovaliov ao desespero. Andou para trás e se deteve por um minuto diante da coluna, olhando minuciosamente para todos os lados para ver se encontrava o nariz em algum lugar. Lembrava-se perfeitamente de que o chapéu dele tinha plumas e o uniforme era bordado em ouro; mas não reparara nem no capote, nem na cor da carruagem, nem nos cavalos, tampouco se havia atrás dela algum lacaio e que libre vestia. De mais a mais, havia tantas carruagens correndo de um lado para outro e com tanta velocidade que se tornava difícil até mesmo distingui-las. E ainda que conseguisse identificar alguma delas, não teria meios para faze-la parar.
O dia estava maravilhoso e ensolarado. Na avenida Nievski havia uma multidão de gente. Uma verdadeira cascata florida de damas derramava-se por toda a calçada desde a ponte da policia até Anitchikov. Lá estava um conselheiro da corte, conhecido seu, a quem chamava de tenente-coronel, especialmente se isso acontecia na presença de estranhos. La estava também Iarichkin, chefe de despacho no Senado, grande amigo seu que sempre dobrava o lance quando jogava. E eis também um outro major que obteve esse grau no Cáucaso e que acenava para que ele fosse lá...
"Mas que diabo!", disse Kovaliov. "Ei, cocheiro, direto ao comissário de polícia!"
Kovaliov sentou-se na carruagem e gritou ao cocheiro: "Vai a todo o vapor!". "Esta ai o comissário de polícia?", perguntou já no saguão.
"Não, senhor", respondeu o porteiro, "acaba de sair."
"Só faltava essa!"
"Pois ", acrescentou o porteiro, "não faz muito tempo que saiu. Se chegasse um minutinho antes, talvez ainda o encontrasse em casa."
Kovaliov, sem tirar o lenço do rosto, jogou-se para o lado do cocheiro e gritou com uma voz desesperada: "Vamos."
"Para onde?", perguntou o cocheiro.
"Vamos em frente!"
"Como, em frente? Aqui  uma curva: para a direita ou para a esquerda?" Essa pergunta fez Kovaliov parar e o obrigou novamente a pensar. Na sua situação, antes de tudo, era preciso recorrer a Delegacia de Ordem Publica, não apenas porque o caso tinha relação direta com a polícia, mas também porque suas disposições poderiam ser muito mais rápidas do que em outros lugares. Procurar então satisfação com o chefe da repartição da qual o nariz se dizia funcionário seria insensato, pois, pelas próprias respostas do nariz, já se podia perceber que para esse homem nada era sagrado. Poderia inclusive mentir nesse caso, como já tinha mentido, assegurando-lhe que nunca o tinha visto antes.
E, assim, Kovaliov já estava prestes a ordenar que o levassem para a Delegacia de Ordem Publica quando de novo lhe ocorreu a ideia de que aquele patife e trapaceiro, que já no primeiro encontro tinha se portado de maneira tão desonesta, poderia tranquilamente ter-se aproveitado desse tempo todo para fugir da cidade. E, então, toda a busca seria vã ou poderia se estender, que Deus o livrasse, por um mês inteiro.
Por fim, pareceu-lhe ter recebido uma iluminação celeste. Decidiu ir direto a sede do jornal e publicar, o quanto antes, uma descrição pormenorizada de todas as suas características, para que aquele que o encontrasse pudesse entrega-lo na mesma hora, ou, pelo menos, informar do seu paradeiro. E então, tomada esse decisão, ordenou ao cocheiro que fosse a sede do jornal e durante todo o percurso não deixou de bater com os punhos nas costas do cocheiro, repetindo:
"Mais depressa, idiota! Mais rápido, patife!"
"Ai, senhor!", dizia o cocheiro, sacudindo a cabeça e açoitando o cavalo cujo pelo era comprido como o de um cachorro maltes.
A carruagem finalmente parou e Kovaliov, ofegante, entrou correndo numa salinha de recepção onde um funcionário de cabelos grisalhos, de óculos e com fraque surrado, estava sentado atrás de uma mesa, segurando a pena com os dentes e contando moedas de cobre.
"Quem é que recebe anúncios aqui?", gritou Kovaliov. "Ah, bom dia!"
"Meus cumprimentos", disse o funcionário grisalho, levantando os olhos por um minuto e baixando-os novamente para as pilhas de dinheiro já separadas.
"Eu gostaria de publicar..."
"Com licença, por favor, queira aguardar um pouco", disse o funcionário escrevendo um numero num papel com uma mão e mudando duas contas no ábaco com a outra. Um lacaio com galões e aspecto de quem servia em uma casa aristocrática, de pé junto a mesa, com um bilhete nas mãos, achou conveniente dar mostras de sua sociabilidade: "Creia-me, senhor, esta cachorrinha não vale nem oito griveniques, e eu não daria por ela nem oito groches; mas a condessa gosta tanto dela, santo Deus, como gosta, e dá cem rublos para quem a encontrar. Agora, cá entre nos, posso dizer, com todo o respeito, que os gostos das pessoas são completamente diferentes: se fosse um perdigueiro ou um poodle, não teria pena de dar quinhentos ou até mil rublos, mas ai já se trataria ao menos de um bom cachorro".
O respeitável funcionário escutava com ar bastante expressivo e ao mesmo tempo fazia o calculo de quantas letras havia no bilhete. Dos lados estavam muitas velhas comerciantes e porteiros, todos eles com bilhetes nas mãos. Num dizia-se que um cocheiro de conduta irrepreensível oferecia seus serviços; um outro anunciava uma caleça de pouco uso, trazida de Paris em 1814; num outro dispensava-se uma jovem criada de dezenove anos treinada para serviço de lavanderia, estando apta também para outros trabalhos. Além disso, uma carruagem muito resistente, só que sem um amortecedor; um novo e fogoso cavalo malhado de dezessete anos; sementes de nabo e rabanete recém-chegadas de Londres; uma casa de campo com todas as benfeitorias: duas estrebarias para cavalos e um lugar para cultivar maravilhosas bétulas ou um bosque de pinheiros; e ainda havia um aviso para que aqueles que quisessem comprar solas velhas comparecessem todos os dias das 8 as 15 horas no mercadinho de trocas. A sala onde se encontrava toda essa gente era pequena e o ar ali estava excessivamente carregado, mas o auxiliar de magistratura Kovaliov não podia sentir o cheiro, pois se cobria com um lenço e o seu nariz se encontrava Deus sabe onde.
"Excelentíssimo senhor, permita-me lhe pedir... Realmente estou precisando", disse finalmente com impaciência.
"Já, já! Dois rublos e quarenta e três copeques! Neste mesmo instante! Um rublo e sessenta e quatro copeques!", disse o funcionário grisalho, atirando os bilhetes na cara das velhas e dos porteiros.
"E o senhor, o que deseja?", disse finalmente dirigindo-se a Kovaliov.
"Eu lhe peço...", disse Kovaliov, "... aconteceu uma fraude ou uma patifaria, até agora não consigo entender direito. Pego-lhe apenas que publique que aquele que me entregar esse canalha recebera uma razoável gratificação."
"Permita-me saber, qual o seu sobrenome?"
"Nada disso, para que sobrenome? Não posso dizer. Tenho muitos conhecidos: a mulher do conselheiro de Estado Tchertariov, Palagueia Grigorievna Podtotchina, mulher do oficial do Estado-Maior... Dá de elas ficarem sabendo, Deus me guarde! O senhor pode escrever simplesmente: o auxiliar de magistratura ou, ainda melhor, portador do grau de major."
"E o foragido, era seu criado?"
"Que criado o que! Isso ainda não seria uma patifaria tão grande! Fugiu de mim... o nariz..."
"Hum! Que sobrenome esquisito! E esse senhor Narizis lhe roubou uma quantia muito grande?"
"Nariz, isto é... não e bem isso que o senhor esta pensando! O nariz, meu próprio nariz, desapareceu não se sabe para onde. O diabo quis se divertir a minha custa!"
"Esta bem, mas de que maneira desapareceu? Eu sinceramente não consigo entender muito bem."
"E não consigo lhe explicar como, mas o fato e que ele agora deve estar circulando pela cidade e se autodenomina conselheiro de Estado. E por isso lhe peço que ponha um anuncio para que aquele que o encontrar o traga de volta o mais rápido possível. O senhor pode imaginar o que é ficar sem uma parte do corpo tão visível? Isso não é o mesmo que qualquer mindinho do pé que dentro do sapato ninguém vai ver se ele existe ou não. Todas as quintas-feiras frequento a casa da esposa do conselheiro de Estado Tchertariov; a de Podtotchina, Palagueia Grigorievna, esposa do oficial do Estado-Maior, que tem uma filha muito bonita e são também boas conhecidas minhas, e o senhor pode avaliar por si só como posso então... Não posso aparecer por lá agora."
O funcionário ficou pensativo, o que se notou por seus lábios fortemente comprimidos.
"Não, não posso colocar um anuncio desses no jornal", disse finalmente depois de uma longa pausa.
"Como? Por que?"
"Bem. O jornal pode perder a sua boa reputação. Se todo mundo começar a publicar que seu nariz fugiu, então... Assim mesmo, já dizem que estão sendo publicados muitos absurdos e falsos rumores."
"E o que ha de absurdo nesse assunto? Não acho nada de absurdo nisso."
"Ao senhor pode parecer que não. Pois veja, na semana passada ocorreu um fato semelhante. Veio um funcionário e, do mesmo modo que o senhor, trouxe um bilhete e pelas contas ficou em dois rublos e setenta e três copeques, e o anuncio todo consistia simplesmente em que fugira um poodle de pelo preto. Aparentemente, o que ha demais nisso? Mas saiu um pasquim: o tal poodle era o tesoureiro não me lembro de qual estabelecimento."
"Mas eu não estou colocando um anuncio sobre um poodle, e sim sobre o meu próprio nariz: e como se eu falasse de mim mesmo."
"Não, não posso de modo algum colocar um anuncio desses."
"Mas como, se o meu nariz realmente sumiu?"
"Se sumiu, então o caso e com o medico. Dizem que ha gente por ai que pode reimplantar qualquer tipo de nariz. Eu, cá para mim, estou notando que o senhor deve ter um temperamento alegre e gosta de brincar com todo mundo."
"Juro por tudo que é sagrado! Já que chegamos a este ponto, vou mostrar ao senhor."
"Para que se incomodar!", prosseguiu o funcionário e cheirou o rapé. "Bem mas se não lhe for incomodo", acrescentou com curiosidade, "então gostaria de dar uma olhada."
O auxiliar de magistratura tirou o lenço do rosto.
"Realmente, muito estranho!", disse o funcionário. "O lugar esta completamente plano como uma panqueca recém-assada. Sim, incrivelmente plano."
"E então? Ainda vai discutir? O senhor mesmo está vendo que é impossível não publicar. Eu lhe serei imensamente grato e fico muito contente de que este incidente tenha me proporcionado o prazer de conhece-lo..." O major, pelo visto, decidira-se dessa vez a ser um tanto falso.
"Publicar, e claro, não seria grande problema", disse o funcionário, "apenas não vejo nenhuma vantagem para o senhor. Se o senhor preferir, entregue isto a alguém que seja hábil na pena e que saiba descrever o assunto como um fenômeno raro na natureza e publique um artiguinho no Abelha do Norte (ai cheirou mais uma vez o rapé) em benefício da juventude (ai enxugou o nariz), ou simplesmente para curiosidade de todos."
O auxiliar de magistratura sentiu-se completamente desesperançado. Fixou os olhos no pé da pagina do jornal em que se anunciavam espetáculos; seu rosto já estava pronto para sorrir ao encontrar o nome de uma atriz muito engraçadinha, e a mao chegou a segurar o bolso para se certificar de que havia nele uma "boa nota", pois os oficiais superiores, segundo Kovaliov, deveriam sentar nas poltronas, quando a lembrança do nariz estragou tudo.
O próprio funcionário parecia estar comovido com a situação embaraçosa de Kovaliov. Procurando atenuar um pouco sua desgraça, julgou conveniente expressar o seu interesse com algumas palavras:
"Eu realmente lamento muito ter lhe acontecido tal percalço. O senhor não gostaria de cheirar um pouco de rape? Acaba com dores de cabeça e mau humor; e bom até para hemorroidas." Dizendo isso, o funcionário ofereceu a caixa de rapé a Kovaliov dobrando habilmente a tampa que exibia o retrato de uma mulher de chapéu. Esta atitude involuntária fez Kovaliov perder a paciência:
"Não posso entender como o senhor ainda tem coragem de brincar", disse, muito sentido. "Por acaso não percebe que me falta justamente o indispensável para poder cheirar? Que o diabo carregue o seu rapé! Não posso agora olhar para ele, e não apenas para o seu horroroso Beresinski, nem que me oferecessem o mais legitimo rape." Dito isso, saiu do jornal profundamente magoado e se dirigiu ao comissário de polícia.
Kovaliov entrou no exato momento em que o comissário se espreguiçava soltando um grasnido, dizia: Ah! Vou tirar uma soneca de duas horinhas!". E por al se pode prever quanto a chegada do auxiliar de magistratura fora absolutamente inoportuna. O comissário era um grande admirador de todas as artes e manufaturas, mas preferia um bom dinheirinho a tudo o mais. "Isto aqui, sim", dizia sempre, "não ha nada melhor do que isto: não pede comida, ocupa pouco espaço, sempre cabe no bolso, se cair, não quebra."
O comissário recebeu Kovaliov com bastante frieza e lhe disse que depois do almoço não era hora de fazer investigações e que a própria natureza determina que depois de comer bem e necessário descansar um pouco (por ai o auxiliar de magistratura podia ver que ao comissário de polícia não eram desconhecidas as máximas dos antigos sábios), e que de um homem honrado não iriam arrancar o nariz, e que o mundo estava cheio de majores que não tinham sequer as roupas de baixo em bom estado e que frequentavam os lugares mais suspeitos.
Isto é, acertou em cheio! É necessário notar que Kovaliov era uma pessoa excessivamente suscetível. Era capaz de perdoar tudo o que dissessem a seu respeito, mas nunca desculparia se isso se referisse ao seu grau ou ao seu cargo. Chegava a achar que nas peças de teatro se podia deixar passar tudo o que se referisse aos oficiais subalternos, mas jamais deveriam atacar os oficiais superiores. A recepção do comissário deixou-o ato confuso que, sacudindo a cabeça e abrindo um pouco as mãos, exclamou, cônscio de sua dignidade: "Confesso que depois de observações tão ofensivas de sua parte, não me resta mais nada a acrescentar...", e saiu.
Voltou para casa, mal sentindo as pernas. Anoitecia. Sua casa pareceu-lhe triste e terrivelmente repugnante depois de todas essas buscas inúteis. Ao entrar no vestíbulo, viu seu criado Ivan deitado de costas no sofá de couro sujo, cuspindo para o teto com tanta precisão que acertava sempre num único e mesmo lugar. Tamanha indiferença enfureceu-o; bateu-lhe com o chapéu na testa, dizendo: Você, seu porco, sempre ocupado com besteiras!".
Ivan pulou imediatamente do lugar e precipitou-se para tirar a capa de Kovaliov.
O major entrou em seu quarto cansado e deprimido, atirou-se numa poltrona e, depois de alguns suspiros, disse:
"Meu Deus! Meu Deus! Por que toda essa desgraça? Se tivesse ficado sem um braço ou sem uma perna, ainda podia ser; sem as orelhas seria horrível, mas até isso seria suportável; mas sem nariz, um homem... só o diabo sabe o que é: um pássaro que não é pássaro, um cidadão que não é cidadão... simplesmente de se pegar e jogar pela janela! Ainda se tivesse sido cortado numa guerra ou num duelo, ou se fosse eu mesmo o motivo... mas desapareceu assim, sem mais nem menos, desapareceu de graça, a troco de nada! Mas não, não pode ser", acrescentou ele depois de pensar um pouco. "É inacreditável que o nariz tenha desaparecido; e completamente inacreditável. Isto, provavelmente, ou se passa em sonho, ou é simples alucinação; pode ser que, por engano, em vez de beber agua, eu tenha bebido a vodca que costumo passar apos a barba. O besta do Ivan não pegou e com certeza a peguei." E para certificar-se de que realmente não estava bêbado, o major se beliscou com tamanha força que chegou a gritar. A dor deixou-o absolutamente convencido de que estava vivendo em plena realidade.
Aproximou-se com cautela do espelho e, a princípio, semicerrou os olhos na esperança de que talvez o nariz aparecesse no seu devido lugar; mas na mesma hora deu um salto para trás, dizendo: "Que coisa infame!".
Isso era completamente incompreensível. Se tivesse desaparecido um botão, uma colher de prata, um relógio, ou qualquer coisa do gênero; mas desaparecer, desaparecer-lhe justamente o que? E, além do mais, na própria casa!... O major Kovaliov, considerando todas as circunstancias, supôs quase com certeza que a culpada de tudo isso não podia ser outra senão a mulher do oficial do Estado-Maior Podtotchin, que desejava casa-lo com a filha. Ele até que gostava de corteja-la, mas evitava o desenlace definitivo. E quando a esposa do oficial do Estado-Maior lhe anunciou, sem rodeios, que queria entregar sua filha a ele, muito habilmente esquivou-se com suas amabilidades, dizendo que ainda era jovem e que precisava servir mais uns cinco aninhos para que estivesse exatamente com quarenta e dois. E por isso a dita-cuja, provavelmente por vingança, decidiu arrasa-lo e, para isso, contratou algumas bruxas, pois de nenhuma forma se poderia admitir que o nariz fora cortado: ninguém havia entrado em seu quarto, o barbeiro Ivan Iakovlievitch fizera-lhe a barba ainda quarta-feira, e durante toda a quarta-feira e até mesmo durante toda a quinta- feira o nariz estivera inteiro, disso ele se lembrava e sabia-o muito bem; além do mais, deveria ter sentido alguma dor e, sem duvida, a ferida não poderia ter cicatrizado tão depressa e ter se tornado chata como uma panqueca Arquitetava planos, em sua cabeça: chamar a mulher do oficial ao Tribunal através de uma intimação formal ou aparecer ele próprio em sua casa para surpreende-la. Suas reflexões foram interrompidas por uma luz que brilhou através de todas as frestas da porta, o que indicava que a vela no vestíbulo ja tinha sido acesa por Ivan. E logo depois apareceu o próprio Ivan trazendo-a diante de si e iluminando vivamente todo o quarto. O primeiro movimento de Kovaliov foi agarrar o lenço e cobrir o lugar onde, na véspera, ainda havia o nariz, para que o estupido homem não ficasse de boca aberta ao ver aquela coisa estranha no seu senhor.
Mai Ivan tivera tempo de ir para o seu quartinho, quando se ouviu no vestíbulo uma voz desconhecida pronunciando: "E aqui que mora o auxiliar de magistratura Kovaliov?".
"Pode entrar, o major Kovaliov está aqui", disse Kovaliov levantando-se apressado e abrindo a porta.
Entrou um funcionário da polícia de boa aparência, com umas sulfas nem claras nem escuras, as bochechas bem cheias; e aquele mesmo que no início da historia estava parado no fim da ponte Issakievski.
"O senhor por acaso perdeu o seu nariz?"
"Exatamente."
"Ele já foi achado."
"O que e que o senhor esta dizendo?", gritou o major Kovaliov. A alegria paralisou sua língua. Olhava estatelado para o oficial que se achava a sua frente e em cujos lábios cheios e em cujas bochechas refletia brilhante a luz tremula da vela. "De que modo?"
"Por um estranho acaso; foi interceptado, já a caminho. Estava sentado numa diligencia e queria ir para Riga. E o passaporte, havia tempo, fora expedido em nome de um funcionário. E o mais estranho de tudo e que eu mesmo, a principio, o tomei por um senhor. Mas, por sorte, estava com meus óculos e logo percebi que era um nariz. Sabe, sou míope, e se o senhor ficar na minha frente, só consigo ver que o senhor tem um rosto, mas não vou distinguir nem o nariz, nem a barba, nada. Minha sogra, quer dizer, a mãe de minha mulher, também não enxerga nada."
Kovaliov estava fora de si. "Mas onde esta ele? Onde? Vou já, correndo."
"Não se preocupe. Sabendo, quanto lhe era necessário, trouxe-o comigo. E o mais curioso e que o principal culpado nesta questão e o vigarista do barbeiro da rua Vosnessenski que já esta preso na delegacia. Ha muito tempo eu já o tinha como suspeito de bebedeira e roubo, e faz três dias ele roubou numa lojinha um monte de botões. O seu nariz esta exatamente como era."
Nisso, o policial enfiou a mão no bolso e tirou dali o nariz embrulhado num papel.
"É ele!", gritou Kovaliov. "É ele mesmo! Tome hoje comigo uma xícara de chá."
"Consideraria um grande prazer, mas não posso, em absoluto. Daqui preciso passar ainda na cadeia... Subiu muito o custo de todos os mantimentos... E ainda mora comigo minha sogra, quer dizer, a mãe de minha mulher e os meus filhos; o mais velho, especialmente, me dá muitas esperanças: e um garoto muito inteligente, pena que não tenhamos meios para educa-lo."
Kovaliov entendeu, e enfiou na mão do policial um dinheirinho que ele apanhou de cima da mesa. O policial fez uma profunda reverencia e saiu. E quase ao mesmo tempo Kovaliov ouviu sua voz na rua xingando um mujique estupido que lhe deu um esbarrão com sua carroça bem naquela hora.
O auxiliar de magistratura, apos a salda do policial, ficou por alguns minutos num estado indefinido, e só depois de alguns minutos voltou-lhe a capacidade de ver e de sentir, tamanho desvanecimento diante da alegria inesperada. Segurou com cuidado o nariz encontrado, com ambas as mãos, formando uma concha, e mais uma vez examinou-o com muita atenção.
"É ele, é ele mesmo!", dizia o major Kovaliov. "Olha aqui a pequena espinha do lado esquerdo que tinha aparecido ontem." O major quase se pôs a gargalhar de alegria. Mas no mundo não ha nada eterno; e, por isso, também a alegria no minuto que se seguiu ao primeiro já não era tão viva; no terceiro minuto ela se tornou mais fraca ainda e, por fim, imperceptivelmente se fundiu com o estado de alma habitual, como o circulo que se forma na agua com a queda de uma pedra e que acaba se fundindo com a superfície lisa. Kovaliov começou a refletir e chegou a conclusão de que o caso não estava encerrado: o nariz havia sido encontrado, mas ainda era preciso coloca-lo, recoloca-lo no seu devido lugar.
"E se ele não pegar?"
Diante de tal pergunta feita a si mesmo, o major empalideceu. Tornado por um sentimento de terror inexplicável, lançou-se a mesa, aproximou o espelho para não colocar o nariz torto. Suas mãos tremiam. Com muito cuidado e atenção, recolocou-o no antigo lugar. Oh!, que horror! O nariz não aderia!... Levou-o junto a boca, esquentou-o um pouco com sua respiração e tornou a aproxima-lo da superfície situada entre as duas bochechas; mas o nariz não se firmava de jeito nenhum.
"Vai, anda, seu bobo, fica al!", dizia para ele. Mas o nariz parecia ser de madeira e cala sobre a mesa com um barulho tão estranho como se fosse uma rolha. O rosto do major contraiu-se, convulso. "Será que ele não vai aderir?", dizia, assustado. Mas, por mais que tentasse leva-lo ao seu próprio lugar, os esforços eram sempre em vão.
Chamou Ivan e mandou-o atrás do médico que ocupava, naquela mesma casa, o melhor apartamento do andar superior. Esse médico era um homem de boa aparência, tinha lindas suíças cor de piche e uma mulher viçosa e saudável; logo cedo comia magas frescas e mantinha a boca extraordinariamente limpa, enxaguando-a todas as manhas durante quase três quartos de hora e polindo os dentes com cinco tipos de escovinhas diferentes.
O médico apareceu num minuto. Depois de perguntar havia quanto tempo acontecera a desgraça, ergueu o major pelo queixo e, com o polegar, justamente onde antes estava o nariz, deu-lhe um piparote tão forte que o major teve de jogar a cabeça para trás com tamanha força que bateu a nuca na parede. O medico disse que isso não era nada e, aconselhando-o a desencostar-se um pouco da parede, mandou inclinar a cabeça onde antes estava o nariz, e disse: "Hum!", Em seguida mandou-o inclinar a cabeça para o lado esquerdo e disse: "Hum!". E, para terminar, deu-lhe de novo um piparote com o polegar de tal modo que o major Kovaliov deu um puxão com a cabeça como um cavalo quando lhe examinam os dentes. Feita essa prova, o medico balançou a cabeça e disse:
"Não, não é possível. E melhor o senhor ficar assim mesmo porque senão poderá ser pior ainda. E claro que seria possível recoloca-lo; eu poderia até coloca-lo agora mesmo, mas lhe asseguro que isso seria pior para o senhor."
"Essa é muito boa! E como e que eu vou ficar sem nariz?", disse Kovaliov. "Pior do que esta não pode ficar. Mas que diabo! Onde vou poder aparecer com tamanha infâmia? Tenho um bom relacionamento: veja, hoje mesmo precisaria comparecer ao sarau em duas casas. Tenho muitos conhecidos: a esposa do conselheiro de Estado Tchechtarev, a senhora Podtotchin, esposa de um oficial de Estado-Maior... apesar de que, depois de seu recente comportamento, não tenho mais nada com ela, a não ser por meio da polícia. Faça-me uma caridade", falou Kovaliov com voz suplicante, "não haveria algum meio, ou algum modo de colocar?, mesmo que não ficasse muito bom, mas contanto que se firmasse; eu poderia até mesmo ampara-lo de leve com a mão nos casos de perigo. E, além do mais, eu nem danço, de modo que não terei possibilidade de prejudica-lo com nenhum movimento descuidado. E no que se refere ao agradecimento por sua visita, pode estar certo de que farei tudo o que os meus meios permitirem..."
"Acredite o senhor", disse o médico com uma voz nem muito alta, nem muito baixa, mas extremamente persuasiva e magnética, "nunca atendo por interesse. Isso vai contra meus princípios e minha arte. É bem verdade que cobro as visitas, mas é simplesmente para não causar ofensa com minha recusa. É claro que eu poderia recolocar o seu nariz, mas juro pela minha honra, se é que não acredita na minha palavra, que isso será muito pior. E melhor deixar por obra da própria natureza. Lave com mais frequência com agua fria e asseguro-o que sem nariz o senhor será tão saudável quanto se o tivesse. Quanto ao nariz, eu o aconselho a coloca-lo num frasco com álcool, ou, melhor ainda, ponha duas colheres de vodca e vinagre quente... e assim poderá conseguir um bom dinheiro por ele. Até eu poderia compra-lo, se é que o senhor não vai pedir muito caro."
"Não, não! Não o vendo por nada!", gritou desesperado o major Kovaliov. "Melhor que pereça!"
"Queira desculpar!", disse o médico despedindo-se. "Eu só quis ser-lhe útil... Mas, que fazer! Ao menos, o senhor viu o meu esforço." Dito isso, o médico saiu do quarto com ar magnânimo. Kovaliov nem sequer reparara em seu rosto e, numa profunda impassibilidade, vira apenas os punhos da camisa branca e limpa como a neve que despontava das mangas de seu fraque negro.
Ele decidiu no dia seguinte, antes de apresentar queixa, escrever a esposa do oficial do Estado-Maior, para ver se não concordaria em devolver, sem briga, o que lhe era devido. A carta tinha o seguinte teor:
Prezada senhora Aleksandra Grigorievna
Não posso compreender a estranha atitude por parte da senhora. Esteja certa de que, procedendo de tal forma, não ganhara absolutamente nada nem me obrigara a casar com sua filha. Acredite que a historia a respeito do meu nariz me é totalmente conhecida, bem como sei que as senhoras são as principais cumplices, e ninguém mais. O súbito desprendimento de seu lugar, a fuga, o disfarce ora sob o aspecto de um funcionário, ora, por fim, no seu aspecto próprio, não pode ser outra coisa senão o resultado de bruxarias executadas pelas senhoras ou por aqueles que, a vossa semelhança, praticam ações tão nobres. Eu, de minha parte, considero meu dever preveni-la de que se o citado nariz não estiver hoje mesmo no seu lugar, serei obrigado a recorrer a defesa e a proteção das leis. Sem mais, com alta estima, tenho a honra de ser seu humilde servidor.
Platon Kovaliov
Prezado senhor Platon Kuzrnitch
Sua carta deixou-me completamente pasma. Confesso-lhe com toda a franqueza que jamais esperei tal coisa de sua parte, tanto mais acusações tão injustas. Previno-o de que o funcionário a quem se refere nunca foi recebido em minha casa, nem disfarçado nem no seu aspecto normal. É verdade que esteve em minha casa Filipe Ivanovitch Potantchikov. E embora ele realmente pretendesse a mão de minha filha e fosse de conduta digna e sóbria e de grande cultura, nunca lhe dei nenhuma esperança. O senhor ainda se refere a um nariz. Se entender por isso que eu pretendia deixa-lo com um palmo de nariz, isto e, dar-lhe uma recusa formal, então me surpreende que o senhor mesmo esteja falando nisso, uma vez que eu, como é do seu conhecimento, sou de opinião totalmente contraria, e se o senhor ainda quiser pedir a mão de minha filha oficialmente, estou pronta desde já a satisfaze-lo, pois esse sempre foi o meu mais vivo desejo. Nessa esperança, fico sempre a sua inteira disposição.
Aleksandra Podtotchina
"Não", dizia Kovaliov, depois de ler a carta. "Ela, realmente, não é a culpada. Não pode ser! A carta esta escrita de tal modo que não pode ser de uma pessoa culpada de crime." O auxiliar de magistratura era entendido nessas coisas, pois, muitas vezes, fora enviado a região do Cáucaso para investigações. "De que modo e por que cargas-d ‘agua isso aconteceu? Só o diabo sabe!", disse finalmente, deixando cair os bravos.
Enquanto isso, os rumores acerca desse extraordinário acontecimento haviam se espalhado por toda a capital e, como é comum, não sem acréscimos especiais. Naquele tempo, as mentes de todos estavam completamente predispostas para o inusitado: ultimamente experiências ocupavam-se do efeito do magnetismo. Além do mais, a historia das cadeiras dançantes na rua Kaniuchenaia era ainda muito recente e, por isso, não era de estranhar que logo começassem a falar que o nariz do auxiliar de magistratura Kovaliov, as três horas em ponto perambulava pela avenida Nievski. Uma multidão de curiosos afluía todos os dias. Alguém disse que o nariz poderia estar na loja Junker: e formou-se tamanha multidão em volta da Junker e um corre-corre que até a policia teve de intervir. Um especulador de aparência respeitável, de suíças, e que vendia diversos tipos de pasteizinhos doces a entrada do teatro, fez especialmente uns bancos de madeira, sólidos e bonitos, e convidava os curiosos a subirem neles por oitenta copeques cada um. Um emérito coronel saiu, com este proposito, mais cedo de sua casa e com muita dificuldade conseguiu abrir caminho entre a multidão. Mas, para sua grande indignação, viu na vitrine da loja, em vez de um nariz, uma camiseta de lã comum e uma litografia com a imagem de uma jovem arrumando sua meia e um janota de colete aberto e de barbicha que olhava para ela de trás de uma arvore: um quadro que já estava havia mais de dez anos pendurado sempre no mesmo lugar. Afastando-se, disse com desdém: "Como é possível confundir o povo com rumores tão tolos e inverossímeis?". Depois correu o rumor de que não era na avenida Nievski que o nariz do major Kovaliov perambulava, mas sim no jardim Tavrltcheski, e, segundo parecia, estava lá já havia muito tempo e até mesmo quando ali ainda vivia Khosrov-Mirza, e este admirava muito aquele estranho capricho da natureza. Alguns estudantes da Academia de Cirurgia dirigiram-se para lá. Uma ilustre e respeitável senhora pediu, por meio de uma carta especial ao supervisor do jardim, que mostrasse aos seus filhos aquele raro fenômeno e, se possível, com uma explicação edificante e instrutiva para os jovens. Com todos esses acontecimentos, todos aqueles mundanos, frequentadores obrigatórios dos saraus, que gostavam de fazer rir as damas e cujo repertorio de piadas, naquela ocasião, estava completamente esgotado, sentiram-se particularmente contentes. Uma pequena minoria de gente respeitável e bem-intencionada estava extremamente descontente. Um senhor dizia, com indignação, não entender como no atual século esclarecido se propalavam inverdades tão absurdas, e admirava-se de que o governo não tomasse providencias. Esse senhor, pelo visto, pertencia aquela categoria de pessoas que gostariam de envolver o governo em tudo, até mesmo nas suas brigas diárias com a mulher. Depois disso... mas aqui novamente todo o acontecimento se encobre por uma nevoa e na o se sabe absolutamente o que aconteceu depois.
III
Cada uma que acontece neste mundo! As vezes sem nenhuma verossimilhança: de repente, aquele mesmo nariz que circulava como conselheiro de Estado, e que causara tanto barulho na cidade, viu-se, como se nada tivesse acontecido, no seu próprio lugar, ou seja, entre as duas bochechas do major Kovaliov. Isso ocorreu no dia 7 de abril. Tendo acordado e olhado por acaso no espelho, ele viu: o nariz! Pôs a mão — com efeito, o nariz! "Arre!", diz Kovaliov, e, de alegria, por pouco não sai em disparada descalço pelo quarto dançando o tropak mas Ivan, que entrava naquele instante, atrapalhou-o. Disse-lhe que queria lavar-se imediatamente e, enquanto se lavava, deu mais uma olhada no espelho: o nariz. Enxugando-se com a toalha, novamente olhou para o espelho: o nariz.
"De uma olhada, Ivan, parece que tenho uma pequena espinha no nariz", disse ele, no entanto pensando: "Que desgraça se Ivan disser: qual nada, meu senhor, não tem espinha e tampouco nariz!".
Porem Ivan disse: "Não tem nenhuma espinha, não; o nariz esta limpinho!".
"Esta bem, que diabo!", disse o major a si mesmo e estalou os dedos. Nesse momento espiou pela porta o barbeiro Ivan Iakovlievitch, mas tão tímido como uma gata que acabou de apanhar por ter roubado toucinho.
"Diga primeiro: as mãos estao limpas?", gritava-lhe Kovaliov ainda de longe.
"Estão limpas."
"Mente!"
"Juro por Deus, estão limpas, meu senhor."
"Bem, veja lá!"
Kovaliov sentou-se, Ivan Iakovlievitch cobriu-o com um guardanapo e, num instante, com o auxílio do pincel, transformou toda a sua barba e parte das bochechas num creme semelhante ao que e servido nas festas de aniversario dos comerciantes. "Ora veja!", disse consigo mesmo Ivan Iakovlievitch ao ver o nariz e depois virou a cabeça para o outro lado e o olhou de lado: "Ora!, quem diria" continuou, e ficou olhando para o nariz um bom tempo. Por fim, com muita suavidade e com um cuidado que não se pode nem imaginar, ergueu dois dedos com a intenção de apanha-lo pela ponta. Era esse o sistema de Ivan Iakovlievitch.
"Opa, opa! Olha al!", gritou Kovaliov. Ivan Iakovlievitch até deixou cair os braços e ficou perplexo e confuso como jamais ficara. Por fim, com cautela, começou a roçar a barba com a navalha, muito embora não lhe fosse nem um pouco cômodo e até difícil barbear sem segurar o órgão do olfato. Todavia, mal apoiando seu áspero polegar na bochecha e na mandíbula, finalmente venceu todos os obstáculos e conseguiu barbear.
Quando tudo estava pronto, Kovaliov na mesma hora correu a vestir-se, pegou um fiacre e foi direto a uma confeitaria. Ao entrar, gritou já de longe: "Rapaz! Uma xicara de chocolate!". E, no mesmo instante, uma espiadela no espelho: o nariz estava. Virou-se para trás alegremente e, com uma expressão satírica, semicerrando um pouco os olhos, olhou para dois militares, um dos quais tinha um nariz não maior do que um botão de colete. Depois disso, dirigiu- se ao escritório do Departamento, onde pleiteava o posto de vice-governador, ou, em caso de insucesso, o de executor. Ao passar pela recepção, deu uma olhada no espelho: o nariz estava lá. Em seguida, foi visitar um outro auxiliar de magistratura ou major, grande gozador, a cujas observações provocativas ele frequentemente respondia: "Ah, você, conheço bem, você é espeto!". Pelo caminho pensou: "E se também o major não se arrebentar de rir ao ver-me, então é um sinal evidente de que tudo, tudo está em seu devido lugar". Mas o auxiliar de magistratura não disse nada. "Muito bom, muito bom, com os diabos!", pensou consigo mesmo Kovaliov. No caminho encontrou a esposa do oficial do Estado- Maior Podtotchin com a filha; cumprimentou-a e foi acolhido com exclamações de alegria. Então estava tudo bem, não havia nele nenhum defeito. Ficou falando com elas um bom tempo e, de proposito, tirando a tabaqueira, ficou diante delas mais outro tempo enchendo ambos os orifícios do nariz com rapé e dizendo para si mesmo: "Olhem aqui para vocês, suas bobas, suas galinhas! E com a filha, não casarei mesmo. Agora assim, par amour — as ordens!". E desde então o major Kovaliov deu de andar pela avenida Nievski como se nada tivesse acontecido, e também pelos teatros e por toda parte. E também o nariz, como se nada tivesse acontecido, estava firme em seu rosto, sem demonstrar nem sequer ter se ausentado dali. E depois de tudo aquilo, o major Kovaliov era sempre visto de bom humor, sorridente, perseguindo decididamente todas as mulheres bonitas. Foi até visto certa vez em frente a uma lojinha, no Pátio do Comercio, comprando uma fita qualquer de condecoração, não se sabe bem para que finalidade, pois não era cavaleiro de nenhuma ordem.
Vejam só que historia foi acontecer na capital setentrional de nosso vasto império! Só agora, refletindo bem sobre tudo, vemos que ha nela muito de inverossímil! Sem falar que é realmente estranho o desprendimento sobrenatural do nariz e o seu aparecimento em diversos lugares, sob a forma de conselheiro de Estado... Como Kovaliov não se deu conta de que era impossível anunciar no jornal a respeito de um nariz? Não quero dizer com isso que o anuncio tenha me parecido muito caro: seria um absurdo e não sou em absoluto uma pessoa avarenta. Mas é indecoroso, incomodo, indecente! Além do mais, como é que o nariz foi parar no pão assado e como é que o próprio Ivan Iakovlievitch...? Não, não entendo isso de jeito nenhum, decididamente não entendo! Mas o que e mais estranho, ainda mais incompreensível do que tudo, e como os autores podem escolher semelhantes assuntos. Confesso que isso é absolutamente inconcebível, parece que... não, não, não entendo em absoluto. Em primeiro lugar, não traz benefício nenhum para a pátria; em segundo... bem, em segundo lugar também não há benefício algum. Eu simplesmente não sei o que e isso...

Mas, apesar de tudo, muito embora se possa, sem duvida, admitir isso, aquilo, e mais aquilo, pode ser até... bem, e onde é que não existem absurdos? Não obstante, se refletirmos bem sobre tudo isso, na verdade, há algo. Digam o que disserem, tais fatos ocorrem no mundo; e raro, mas ocorrem.

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